26/08/2026

Especialistas em economia e saúde debatem a primeira infância

Mesa no III ENAPI destacou o retorno dos investimentos em primeira infância e o combate às desigualdades

A primeira mesa  da programação do III Encontro Nacional da Primeira Infância (ENAPI), na tarde desta quarta-feira (26/ago), reuniu profissionais de duas áreas do conhecimento que podem parecer, à primeira vista, divergentes: de um lado, a economia; do outro, a psicologia. E no centro do debate, a necessidade de enfrentar as desigualdades sociais e investir na primeira infância.

Ao longo das apresentações, no entanto, os especialistas demonstraram que seus raciocínios são complementares, e não opostos. O primeiro a expor seu trabalho foi o economista e professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV) André Portela. Ele propôs uma reflexão sobre a pergunta: Por que investir na primeira infância? “Existem evidências de que investimentos em primeira infância trazem altos retornos, inclusive econômicos, para a pessoa e para a sociedade. Eles se pagam ao longo do tempo”, afirmou.

Portela apresentou exemplos de estudos científicos conduzidos no Canadá, na Jamaica e, especialmente no Estados Unidos (EUA). Naquele país, uma iniciativa chamada Perry School Project acompanhou um grupo de 123 crianças, à época com três anos, até os seus 40 anos. O grupo que participou de um programa de educação infantil do governo, teve, no futuro, maior renda, empregos mais qualificados, além de 48% menos envolvimento com o crime.

“Investir em primeira infância é mais eficaz do que remediar problemas na vida adulta”, frisou o professor. O convidado também compartilhou com os participantes estudos realizados no Brasil, entre eles uma análise sobre a expansão da pré-escola a partir de 2008, quando estados e municípios passaram a ter a obrigação de ampliar a oferta. Segundo o estudo, a medida, acompanhada da destinação de recursos públicos, produziu impactos positivos em eficiência e aprendizado.

Já a psicóloga, epidemiologista e professora da Universidade Federal da Bahia (UFBA) Dandara Ramos, mulher negra, defendeu que, independentemente de retornos econômicos e financeiros, o investimento na primeira infância é uma questão de direitos. “É um dever humano, mesmo que não desse nenhum retorno econômico à sociedade”, afirmou. Além disso, ela destacou que essas políticas devem considerar a existência de “várias infâncias no Brasil”, diante dos altos índices de desigualdade social. 

Dandara ressaltou que a pobreza atinge principalmente as crianças pequenas. Dados mostrados pela especialista indicam que, no Brasil, 63% dos menores de até 6 anos estão em situação de pobreza, o que corresponde a 11 milhões de crianças. Desse grupo, 80% estão em situação de extrema pobreza, conforme o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). “Toda política pública para crianças deve ser uma política de enfrentamento à pobreza e à desigualdade”, disse.

III ENAPI

O III ENAPI é o maior evento brasileiro dedicado à proteção da primeira infância. Pela primeira vez em Goiânia, o encontro é realizado pelo Instituto Rui Barbosa (IRB), por meio do seu Comitê Técnico da Primeira Infância (CTPI), em parceria com a Associação dos Membros dos Tribunais de Contas do Brasil (Atricon), o Conselho Nacional dos Presidentes dos Tribunais de Contas (CNPTC), o Tribunal de Contas do Estado de Goiás (TCE-GO) e o Tribunal de Contas dos Municípios do Estado de Goiás (TCMGO). De 26 a 28 de agosto, a programação inclui palestras e mesas-redondas, com o objetivo principal de fortalecer as políticas públicas voltadas às crianças de até seis anos.

Acesse o álbum de fotos do evento e acompanhe a transmissão ao vivo no Youtube do TCE-GO.

Texto: Vívian Maia